O Método P.E.R.A.

Atualizado: Jan 4



Desenvolvido pela professora aposentada pela UNESP, Drª Eunice Ferreira Vaz Yoshiura, o método P.E.R.A. (Percepção, Expressão, Reflexão e Ação) foi resultado de pesquisas de mestrado e doutorado pela ECA USP - Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.


A este respeito, em sua tese de doutorado, Clarice Aparecida Alencar Garcia, explana:


"O procedimento metodológico (P.E.R.A.) consiste basicamente na estimulação de aspectos cognitivos e emocionais do pensamento criativo dos participantes, por meio de experiências imersivas em vivências coordenadas e sequenciais segundo as etapas do processo de criação, com ênfase em procedimentos perceptivos, expressivos, reflexivos e aplicativos.


Para tal, apoiou-se originalmente em referenciais teóricos baseados no conhecimento advindo de pesquisas da psicologia da criatividade — especialmente J.P.Guilford e Paul Torrance — e em princípios e conceitos da filosofia de Mokiti Okada, alinhados com as características comportamentais implicadas no processo criativo. As raízes orientais desse pensador remontam ao budismo e ao xintoísmo e são amalgamadas com a filosofia ocidental de Henri Bérgson (1859-1941), William James (1842-1910) e Charles Sanders Peirce (1839-1914). Conforme afirmou Yoshiura em entrevista, os textos de Mokiti Okada mantém estreita relação com os pensamentos estéticos de Kant, Hegel e Heidegger e surpreendem pelo pragmatismo, o que facilitou a preparação da equipe de aplicadores para uma abordagem unificada. Posteriormente, essa base teórica foi confrontada com os resultados dos estudos analíticos de C.G. Jung (1980) e com as pesquisas em neurofisiologia de António Damásio (2006), identificando-se aproximações.


Evidenciou-se também sua afinidade com a concepção sistêmica (Morin, 2003) no tocante ao homem, ao trabalho, à sociedade e à natureza. Um dos aspectos essenciais da filosofia de Mokiti Okada consiste nas afirmações de que o mundo espiritual é o mundo do pensamento e o homem depende do seu pensamento. E ele distingue duas formas básicas de pensar: a restrita, regida pelo princípio shojo e a ampla, pelo princípio daijo. Yoshiura estabelece relação entre essas polaridades e os dois níveis de consciência identificados por Damásio — consciência central e consciência ampliada—, assim como com as instâncias do ego e do self referidas por Jung. Por outro lado, no método P.E.R.A., a abordagem do pensamento criativo em seus aspectos cognitivos e emotivos contempla as funções psíquicas referidas por Jung: pensamento, intuição, sensação e sentimento".


Segundo a referida autora, o método apresenta as características enunciadas a seguir:


1. É orientado por uma concepção filosófica que compreende princípios e valores humanos construtivos que norteiam o conjunto da sequência das atividades, os objetivos específicos a serem operacionalizados em cada uma delas, conceitos e atitudes trabalhados, assim como o comportamento da equipe facilitadora.


2. O conjunto das atividades de cada encontro se organiza em função de um determinado conceito assumido como conceito principal do encontro. Este é apresentado ao grupo de participantes sob uma forma simbólica não codificada – e, portanto, não verbal – para que eles construam sua significação a partir da experiência e os incorporem em atitudes coerentes com o conceito em foco.


3. O conceito principal, assim como os demais conceitos trabalhados durante as atividades, nunca são apresentados ao grupo como dados informativos, mas como situações-problema – para que sejam elaborados pelos participantes de forma simbólica, por meio de atividades perceptivas e expressivas. Assim, com exceção dos momentos iniciais e finais de partilha de ideias, utiliza-se predominante a comunicação simbólica não-verbal. A leitura dos significados e sentidos apresentados nos trabalhos dos participantes não pode ser feita, pelos mesmos ou pelos facilitadores, a partir da psicanálise — ou seja, interpretação das causas de comportamentos ou resultados expressivos — mas em abordagem gestáltica — isto é, em função de modos de estruturação formal e de relações topológicas, referindo-se sempre ao trabalho e nunca à pessoa.


4. Os objetivos específicos que orientam as atividades são sempre operacionalizados em três dimensões de conhecimento, sendo referentes a: a) processo criativo; b) comportamento; c) linguagem simbólica (em todas as suas formas, mas com preponderância da visual).


5. O conjunto das atividades – individuais, em pequenos grupos e coletivas – desenvolve-se segundo uma dinâmica de equipe, que prevê, no início e no final, a disposição do grupo em círculo, para o compartilhamento das experiências de cada um dos participantes.


6. As etapas do processo criativo de Motamedi (1982) são agrupadas em blocos de atividades focalizando principalmente a Percepção, a Expressão, a Reflexão e a Ação, na sequência apresentada, que dá origem à designação do método (P.E.R.A.). As atividades de Percepção incidem sobre a percepção sensorial, corporal, espacial, temporal e intuitiva. Esta última é trabalhada para a produção do insight com a estimulação de níveis pré-conscientes por meio da interiorização (geralmente denominada relaxamento, devido à diminuição da atividade física). Nesse momento se trabalha a imaginação e a eficácia simbólica no estabelecimento de padrões mentais. As atividades de Expressão compreendem as formas verbais orais e escritas, sonoras, corporais, plásticas, visuais e audiovisuais. As atividades de Reflexão incluem leitura, descrição, análise, síntese e interpretação mediante o contexto, do processo desenvolvido e dos resultados da expressão dos participantes. As atividades de Ação consistem na aplicação do conhecimento adquirido pela experiência, reflexão, compartilhamento de ideias com o grupo, em situações externas ao contexto do curso.


7. O conjunto dos encontros também se desenvolve focalizando sequencialmente os elementos que compõem a sigla P.E.R.A., sendo eles agrupados em quatro módulos. Assim, o primeiro é mais voltado para a Percepção; o seguinte para a Expressão; o outro para a Reflexão e o último para a Ação. Paralelamente, em todos os módulos se trabalha o eu relacional, embora em cada um deles se observe os temos da sequência referida por Merleau-Ponty em sua fenomenologia da percepção (1999). Dessa forma, tem-se também, no primeiro módulo o enfoque em Eu/Eu; no segundo em Eu e o Outro; no terceiro, Nós; e no quarto, Nós no Mundo. A abordagem nas atividades também é fenomenológica, ou seja, o conhecimento é construído pelos participantes.


8. O conhecimento é processado individualmente, a partir da experiência subjetiva de cada um dos participantes na criação de âmbitos (QUINTÁS,1992). Por esse motivo, o envolvimento durante o processo é determinante para a obtenção dos resultados e a otimização das experiências ocorre quando elas se caracterizam como experiência estética (BARILLI, 1994).


9. Uma vez realizados os passos do método acima descritos, observa-se emergir nos sujeitos a consciência da possibilidade de utilização de potencialidades antes não accessíveis. E também a manifestação da capacidade de gerar respostas harmônicas a estímulos que antes os desestabilizavam. Tais fatos levaram a arteeducadora, e também consultora coorporativa, Tamar Elam, em seu trabalho junto à Escola Maguem Avraham-Banot, ao apresentar o método, complementar apropriadamente, a sigla P.E.R.A., com as letras C, para designar Consciência, e H, para Harmonia, perfazendo P.E.R.A.C.H..


O programa de atividades para o desenvolvimento criativo tem como pressupostos: o homem é um ser criativo em evolução; seu bem-estar material depende da evolução de seu pensamento (razão, sentimento e vontade), em harmonia com a grande natureza - a verdade, o bem e o belo; a apreciação do belo pode ajudá-lo nessa evolução. Assim, seus objetivos se definiram no sentido de contribuir para o desenvolvimento humano, visando à concepção e a práxis do viver como Arte e à consciência do belo. Resultam daí duas áreas de atuação, distintas na abordagem teórica, mas mescladas na prática: a da criatividade, sob a forma de expressão artística, e a da apreciação da arte do belo. Este termo significa aqui a expressão da harmonia, em sentido amplo. Não implica no cultivo de normas acadêmicas, nem da adoção de padrões de beleza definidos ou característicos de determinadas épocas ou culturas. São consideradas expressões do belo, obras de arte produzidas pelas diversas civilizações, em diferentes períodos históricos. A concepção de criatividade, para abranger a forma artística, é considerada em relação ao processo mobilizado por fatores cognitivos e emotivos, em que o indivíduo, sensibilizando-se a situações de problemas, lacunas ou desarmonias, procura e explora elementos até organizá-los de forma especial, nova e adequada à situação, efetuando as verificações necessárias. E está em consonância com a conceituação de Young:


Criatividade é a realização do nosso potencial. É a integração do nosso lado lógico com o lado intuitivo. Criatividade é mais do que espontaneidade, é deliberação também. É o pensamento divergente convergindo em alguma solução: criatividade não apenas gera possibilidades, mas também escolhe entre elas. É mais do que originalidade, que pode apenas expressar o bizarro. Criatividade é tanto um avanço e uma mudança, como uma expressão de continuidade com relação ao passado.‖ (YOUNG, 1985, apud FORD & HARRIS,1992).


No Método P.E.R.A. os objetivos referentes ao processo criativo acima referidos, contemplam as etapas identificadas por Motamedi (1982, apud YOSHIURA, 2009): enquadramento, experimentação, exploração, revelação, afirmação, reenquadramento, e confirmação. Os objetivos relativos ao comportamento compreendem as características do pensamento criativo do domínio cognitivo identificadas por J.P.Guilford — sensibilidade a problemas (capacidade de reconhecer a existência de um problema), fluência (capacidade de produção rápida), flexibilidade espontânea e flexibilidade adaptativa (capacidade de produção variada), originalidade (capacidade de produzir respostas raras), elaboração (capacidade de compor as partes), redefinição (capacidade de reorganizar unidades) (KNELLER, 1973; TORRANCE, 1976, apud YOSHIURA, 2009). Os objetivos relacionados ao domínio emotivo correspondem aos apontados por Paul Torrance (1976:164, apud YOSHIURA, 2009) — disposição de arriscar, autopercepção, autodiferenciação (percepção da própria individualidade como distinta das dos outros), autoconfiança e mutualidade nas relações interpessoais (equilíbrio entre a busca excessiva e a rejeição patológica) — e também às proposições de Mokiti Okada (1982, apud YOSHIURA, 2009) para a arte de viver, em seu Alicerce do Paraíso (v.1-5) — autocontrole físico, emocional e mental, sensibilidade à harmonia, visão ampla, sinceridade, alteridade e controle do pensamento.


Os objetivos voltados para a linguagem simbólica baseiam-se nos princípios da Gestalt conforme Arnheim (1997) e a proposta de alfabetização visual de Dondis (1997). As atividades perceptivas e expressivas, ocorrendo na forma de experiências estéticas, têm o fim em si mesmas, e por isso exigem a consideração da situação de pertença de modo amplo, rico e intenso, distante dos mecanismos de hábito e da rotina, livre das preocupações de atender exigências práticas e sociais (BARILLI, 1984:33-34, apud YOSHIURA, 2009). Dessa forma são mobilizados níveis profundos de consciência, favorecendo a compreensão dos conceitos focalizados e a sua incorporação em forma de atitudes.




Referências Bibliográficas:


GARCIA, Clarice Aparecida Alencar. Formação de professores na melhoria da prática docente: um estudo a partir do Método P.E.R.A. Araraquara, 2010. 216p. Tese (Doutorado em Educação) FCLAR - UNESP.


NÓBREGA, Isabel Cristina. Vivência com Arte Promovendo Saúde e Criatividade. Disponível em: https://paraconstrucao.com.br/vivencia-com-arte-arte-promovendo-saude-e-criatividade/ acesso em 22/1/2020.


YOSHIURA, Eunice Ferreira Vaz. Constituição do sujeito receptor na comunicação: a experiência estética como caminho. São Paulo: Annablume, 201p.





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